Por Álvaro da Costa e Silva
“Essa é a primeira vez que vejo Rodolfo González Alcántara. E o que vejo me deixa muda. Por quê, se ele era igual a muitos?”. Movida por essa e outras perguntas – desde que leu, no jornal La Nación, um pequeno artigo sobre um festival de dança em que “os campeões caminham pelas ruas de Laborde com o respeito que despertavam os heróis esportivos da antiga Grécia”, – a jornalista Leila Guerriero escreveu Uma história simples.
No livro, ela narra seu assombro ao descobrir como o festival de malambo, praticamente desconhecido no país, leva centenas de pessoas, entre competidores, seus familiares e jurados, a essa pequena localidade, na província de Córdoba, na Argentina. O campeão vive seu momento de glória e, ao mesmo tempo, o fim de sua trajetória em Laborde, já que, ao vencer a peleja, não poderá mais participar de outra competição do gênero.
Mas não é só isso: o sapateado dos “gaúchos” argentinos exige treinamento árduo, pois, durante os quase cinco minutos de apresentação, o dançarino precisa manter a velocidade de um campeão olímpico dos 100 metros rasos. Não raro, eles deixam o palco com feridas nos pés e voltam para uma segunda apresentação suportando a dor. Quase todos vêm de famílias humildes e trabalham duro para conseguir pagar as horas de treino. Então, indaga Leila, durante o tempo em que acompanha Rodolfo de perto, por que competir em Laborde?
Com uma prosa literária, Leila narra a história em primeira pessoa, compartilhando com o leitor suas dúvidas e seu fascínio sobre os personagens. Nesta entrevista ao jornalista Álvaro Costa e Silva, ela fala do livro, conta que, para escrever, lê mais ficção que jornalismo e assiste mais a filmes que documentários, reflete sobre o mercado e a função dos jornalistas e diz que não se pode perder a fé nos leitores. “Já não confiamos que sejam inteligentes, que queiram ler coisas de qualidade e bem contadas. Então, damos a eles o fast-food pré-digerido. Eu confio nos leitores de qualidade. Talvez não sejam cem por cento dos leitores, mas são muitos.”
Uma história simples aborda uma tradição. Mas é uma tradição íntima, “pequena”, diferente de outras maiores e mais conservadoras. Essa qualidade do íntimo e do secreto lhe atraiu?
Em primeiro lugar, o que me chamou atenção quando tive conhecimento desta história através de uma nota publicada no jornal La Nación foi precisamente que algo tão prestigioso para um grupo de gente tivesse por um momento um aspecto tão secreto, tão desconhecido. Para os malambistas, serem campeões do Festival Nacional de Malambo de Laborde é tão importante como é para a seleção de futebol de um país ganhar uma Copa do Mundo. Não há nada maior do que isso. Até o reconhecimento que eles recebem em Laborde é tão íntimo e desconhecido do grande público porque é o reconhecimento de seus pares, de outros malambistas, de outros bailarinos. Isso, com certeza, me chamou a atenção. Depois, começaram a me interessar outras coisas, como o fato de o campeão de cada ano não poder dançar nunca mais em outro concurso. Essa espécie de sacrifício, de alcançar a posição máxima para perdê-la, me passa uma sensação completamente trágica, e, por isso, magnética.
O caráter “celebridade zero” de Rodolfo González Alcántara e do Festival Nacional de Malambo de Laborde te impulsionou a contar a história?
A celebridade zero de Rodolfo só era uma “celebridade zero” para o grande público, mas não para o mundo do malambo. De qualquer forma, era o mesmo tipo de celebridade zero de todos os demais participantes do festival de Laborde. Mas, no círculo de malambistas, todos eles são pessoas conhecidas, com trajetórias, ganhadores de prêmios, com uma enorme qualidade. De todo modo, fui a Laborde disposta a contar a historia do festival, sem me focar na história de um malambista em particular. Mas, como é contado no livro, uma noite eu vi o Rodolfo dançando e tudo mudou para mim, para a história e para o livro. E foi isso, esse feitiço selvagem, a potência da arte de uma pessoa em um cenário, o que me fez mudar o enfoque na hora de contar a história.
Por que a decisão de escrever o livro na primeira pessoa? Quando a primeira pessoa é válida em jornalismo?
Eu sou da velha escolha de Homero Thevenet, editor uruguaio que dizia que só deveríamos usar a primeira pessoa para contar uma experiência intransferível. Acredito que a primeira pessoa, bem usada, é maravilhosa quando o jornalista que a usa não perde de vista que o que importa é a história que ele conta e não ele mesmo. No caso deste livro, o feitiço que a dança de Rodolfo exerceu sobre mim naquela noite foi muito pessoal, íntimo e foi algo que se articulou com as demais perguntas que movem o livro: Por que este homem faz o que faz? Por que quer chegar ao máximo para em seguida sucumbir? Esta foi a maneira mais genuína que encontrei para compartilhar com o leitor uma experiência que me tirou do meu eixo por completo. Como se eu dissesse: “Caro leitor, não sou especialista em malambo e nem em danças folclóricas. Sou alguém como você, um pouco prevenida sobre o folclórico e o ‘very tipical’. No entanto, como sou ateia sobre o folclórico, posso dizer que isso é outra coisa, superior e sublime, que também poderia tocar você”.
A narradora de Uma história simples se envolve até que ponto com a história que está contando?
Acredito que completamente, sobretudo, porque tem uma necessidade minha, muito genuína, de tratar de entender, através da história de Rodolfo, por que todas as pessoas dedicam tanto empenho, tempo, dinheiro e esforço em ganhar um prêmio que será, ao mesmo tempo, o final de sua carreira como bailarinos. Esse envolvimento também se deu em um sentido mais complexo que tem a ver com algumas reflexões que estão no livro sobre o meu papel de jornalista. Até que ponto minha presença não era para o Rodolfo uma enorme pressão e até que ponto esta enorme pressão não ia ter alguma influência sobre o resultado final da competição? Teria como o Rodolfo dançar completamente despreocupado com o fato de que eu estava ali, observando-o, seguindo seus passos, ou essa presença funcionava como uma sorte extra, e por isso, podia inclusive modificar o resultado? Nossos destinos estavam completamente amarrados: ele sabia que eu não ia me retirar de sua vida sem ter minha história e eu sabia que ele não ia me pedir para eu me retirar da vida dele. Nós só nos demos conta disso depois da publicação do livro porque nos confessamos mutuamente que muitas coisas nos preocupavam. Sobretudo, nos preocupava o resultado da competição, que ia influenciar radicalmente a história.
Você diz que uma das tarefas do jornalista é “ver e contar”. Mas você também diz que é necessário “ver um pouco mais de perto”. Em que consiste essa tática ou essa maneira?
Não é uma tática. É a maneira pela qual, na minha opinião, um bom jornalista deve se comportar. Acredito que um jornalista quando está trabalhando desenvolve uma intensidade no olhar que é muito diferente da visão de sua vida cotidiana. Se alguém está trabalhando em uma reportagem, é um radar com todos os sentidos em alerta. As pessoas não reparam em sua vida normal, de todos os dias. Se você vai comprar um pão na padaria da esquina, por exemplo, não tem o mesmo olhar sobre essa ação se sabe que terá que escrever trezentas palavras sobre esse trajeto em uma coluna de jornal. Vai mais atento, olhando as coisas, fazendo uma série de reflexões e elucubrações que raramente aconteceriam se não estivesse buscando algo para contar.
Você costuma dizer que lê mais ficção que jornalismo, mais historinhas em quadrinhos que livros de investigação e assiste mais cinema que documentários. É um conselho ou uma maneira de procurar fazer um jornalismo mais atraente?
Não são conselhos. É porque acredito que cada um deve ter seu próprio método de trabalho e que esse método inclui também as ferramentas que são uteis para obter mais recursos narrativos. Ainda que não acredite que alguém possa ser um bom jornalista se nunca ler um livro ou sem nunca ir ao cinema etc., não me atreveria a dizer a alguém o que deve fazer para melhorar seu trabalho. Tudo isso me nutre, mas para outras pessoas podem haver coisas melhores.
Pergunta inevitável: sobre mudanças no jornalismo. (Há quem fale até no “fim do jornalismo”.) Você se pergunta: “Vamos deixar que a situação mude a nós?” É preciso resistir?
Não gosto da palavra “resistir”. Me soa como alguém que luta, mas que no fundo sabe que a batalha está perdida. Não acredito que seja o caso do jornalismo. Mesmo assim, temos que lutar e não resistir. E a única forma de fazer isso é fazendo nosso trabalho cada vez melhor e recuperar a fé nos leitores. Porque é como se, de repente, nós jornalistas tivéssemos perdido a fé nos leitores. Já não confiamos que sejam inteligentes, que queiram ler coisas de qualidade e bem contadas. Então, damos a eles o fast-food pré-digerido. Eu confio nos leitores de qualidade. Talvez não sejam cem por cento dos leitores, mas eles são muitos.
Jornalismo necessita de tempo para fazer? Quando tempo te leva uma reportagem? E espaço? Quantos caracteres?
Não há fórmulas. Posso levar três meses para fazer um artigo grande, mas também faço coisas mais rápidas em uma ou duas semanas. Funciono bem com a urgência e com a rapidez, e cada vez sinto mais faz falta passar mais tempo com as pessoas, para sentir que entendo algo deles e de suas vidas. Mas isso não é uma performance nem uma corrida de fundo. Não serve de nada que eu diga: levei tanto tempo para escrever isso. Cada um tem seu método. Tem gente que leva três meses para fazer coisas horríveis e tem gente que, em duas semanas e com apenas uma entrevista, faz maravilhas. No que se refere aos caracteres, isso é o mais complexo. Para fazer algumas coisas, falta espaço. Se alguém leva muito tempo entrevistando uma pessoa para fazer um perfil a fundo, não pode contar isso em 5.000 caracteres. É um disparate.
O que é indispensável para escrever um bom perfil?
Não há receitas, com certeza, mas eu diria que para escrever um perfil tem de se estar disposto a entender como funciona a pessoa que se está perfilando em sua totalidade. Conhecer sua vida e obra e permanecer com essa pessoa até entender que passado foi esse que produziu esse presente.
“O jornalismo objetivo é a grande mentira do universo, tudo é subjetivo”. Poderia desenvolver a questão que a sua própria frase aborda?
Para mim, é tão óbvio que às vezes me parece absurdo ter que explicar. O jornalismo é algo feito por pessoas, não por programas de computador. O jornalista reporta e escreve tudo o que ele é: sua extração social, política, cultural, econômica. Quando pergunta, quando observa, quando faz a edição final de seu texto, toma decisões subjetivas, descartando outras possibilidades. Como vamos pretender que todo esse trabalho seja objetivo e cético? Mas, para além disso, por que que gostaríamos que fosse? O que enriquece o jornalismo é o olhar sobre as coisas. Mas, claro, o olhar não é o mesmo que opinião. A questão é que, ainda que o olhar seja subjetivo, há de ser um olhar honesto: o jornalista não pode manipular a realidade para que a realidade diga ele o que lhe convém. Ele deve mostrar as partes de um todo de maneira equilibrada. É necessário uma subjetividade honesta, pode.
Você gostaria de contar alguma história que se passe no Brasil, com personagens brasileiros? Algum plano?
As boas histórias não têm nacionalidade. Eu gostaria de contar boas histórias sobre qualquer lugar, mas nunca penso em termos de ‘ah, como eu gostaria de entrevistar tal pessoa em tal país”. A nacionalidade não é um atrativo para mim. As pessoas e suas realidades me interessam em qualquer país do mundo.
* Foto: Diego Sampere