O Instituto Berggruen concedeu ao filósofo político Michael Sandel o Prêmio Berggruen de Filosofia e Cultura 2025. Um dos principais pensadores e intelectuais públicos do mundo, Sandel exerce ampla influência nos Estados Unidos, Europa, Ásia e América Latina por meio de seus estudos e ensinamentos sobre justiça, ética, mercados e democracia. O prêmio de US$1 milhão é concedido anualmente aos indivíduos cujas ideias moldaram profundamente a compreensão e o avanço da condição humana em um mundo em rápida transformação. O impacto e o alcance de sua exploração da moralidade, dignidade e bem comum na sociedade e no debate político são incomparáveis.
“O trabalho do Professor Sandel deixou uma marca profunda no cenário intelectual global” disse Yuk Hui, presidente do júri do Prênio Berggruen. “Suas críticas ao neoliberalismo, à ideologia meritocrática e ao populismo dialogam com as questões mais urgentes do nosso tempo”, acrescentou.
Ao longo de uma carreira de décadas na Universidade Harvard, Sandel tem se empenhado em revigorar o discurso político e renovar a vida cívica, imbuindo ambos de moralidade e virtude. Sua trajetória filosófica vai dos estudos teóricos sobre justiça, no início de sua carreira, a considerações cada vez mais urgentes sobre temas práticos da política, economia e da necessidade de raciocinar em conjunto apesar das diferenças.
Junto com pensadores como Alasdair MacIntyre e Charles Taylor, Sandel defende a importância da comunidade na formação da identidade individual. Em sua primeira obra, Liberalism and the Limits of Justice (1982), ele criticou de forma empática a versão do liberalismo defendida por John Rawls em A Theory of Justice (1971), segundo a qual os princípios de justiça e direitos devem ser neutros em relação às concepções concorrentes do “bem viver”. Sandel argumentou que o liberalismo de Rawls se baseava em uma visão implausível do indivíduo como um ser livre e “desvinculado”. Para ele, uma teoria adequada de justiça deve reconhecer que somos constituídos pelas histórias e comunidades que nos situam no mundo.
Essa ideia evoluiu até culminar em sua visão de justiça e bem comum apresentada em Justiça: O que é fazer a coisa certa (2009), que ultrapassou os muros acadêmicos e vendeu mais de 2 milhões de exemplares no mundo todo. Sandel propõe um discurso público moralmente engajado, aberto tanto a argumentos seculares quanto espirituais, retomando ideias de Aristóteles, Bentham, Kant e John Stuart Mill, e aplicando-as a temas como tributação, serviço militar obrigatório, suicídio assistido, barriga de aluguel, reparações e patriotismo. Essa noção mais ampla de debate público é especialmente relevante diante do descontentamento generalizado com o tom vazio e rancoroso dos debates morais e políticos atuais.
Em obras posteriores, Sandel mostrou como os excessos da fé no mercado e da arrogância meritocrática alimentaram a crescente divisão entre vencedores e perdedores. Em O que o dinheiro não compra (2012), ele critica a expansão dos valores de mercado para esferas da vida antes regidas por normas não mercantis. Ele pergunta: até que ponto são livres as escolhas que fazemos no mercado livre? E existem virtudes ou bens superiores que o dinheiro não pode comprar? Se tudo está à venda, argumenta Sandel, os mercados podem corromper ou eliminar os fins sociais e morais que deveriam servir. Em A tirania do mérito (2020), ele sustenta que a meritocracia americana, embora aparentemente recompensar talento e esforço, na verdade produz arrogância corrosiva, desigualdade profunda e ressentimento populista. Sandel defende mais humildade das elites, o reconhecimento do papel da sorte nos resultados da vida e uma reorientação social em torno da “dignidade do trabalho”.