“Quando eu parti”, de Gayle Forman

31/08/2017 3168 visualizações

Por Claudia Lamego

Maribeth mora em Nova York, num loft alugado na região mais cool de Manhattan, é casada, tem dois filhos e o emprego dos sonhos numa revista feminina. Com listas intermináveis de tarefas, que vão desde o fechamento da revista, o pagamento das contas da casa, a consulta anual com a ginecologista, o telefonema ao fonoaudiólogo de um dos filhos, vistoria do carro, uma ida à lavanderia e até uma festinha em casa para outros pais que, como ela e o marido, também tiveram gêmeos, Maribeth sente uma pontada no coração e pensa que a dor no peito é só um mal-estar que vai passar logo que ela consiga dar conta de tudo. Mas o leitor, logo de cara, no primeiro parágrafo, sabe o que realmente aconteceu: “Maribeth Klein estava trabalhando até tarde à espera da conclusão das provas finais da edição de dezembro, quando infartou.”

Maribeth é a personagem principal de “Quando eu parti”, novo romance de Gayle Forman, autora que conquistou milhares de fãs com o seu livro juvenil “Se eu ficar”, adaptado com sucesso para o cinema. Desta vez, a protagonista é uma mulher na casa dos 40 anos que se confronta com todas as escolhas feitas na vida até então. Depois da complicada cirurgia no coração, ela decide que precisa dar um tempo e, para isso, resolve fugir e recomeçar a vida, sozinha e com novo nome, em outra cidade, levando todo o dinheiro de uma herança que o pai lhe deixou.

Gayle Forman estará no Brasil para participar da Bienal do Rio no próximo dia 7 de setembro, às 17h, na Arena #SemFiltro (veja a programação completa dos autores da Record neste link). Nesta entrevista, ela responde sobre a mudança de registro ao escrever para um público adulto e fala sobre os mais variados temas, da eleição de Trump ao machismo na sociedade e em Hollywood, da crise do jornalismo a seus próximos projetos.

 

 

Você é uma autora consagrada no universo juvenil. Muita gente deve ter te perguntado já, mas a gente queria saber como decidiu escrever seu primeiro romance adulto, depois de todo o sucesso de “Se eu ficar”, e quais os desafios dessa mudança?

Quando sentei para escrever um livro após terminar “Eu estive aqui”, eu tinha toda intenção de escrever um romance jovem, mas logo descobri que não ia conseguir. Eu não queria visitar os temas sobre os quais normalmente falo nos livros juvenis, e o que realmente queria fazer era escrever sobre casamento e vida familiar. Acho que isso tinha a ver também com o meu momento de vida, além do fato de estar vindo do sucesso estrondoso de “Seu eu ficar” e querer fazer algo completamente diferente para evitar a pressão de ter que repetir aquele sucesso. Como não havia muita expectativa, escrever “Quando eu parti” foi uma delícia. Adorei escrever uma personagem um pouco mais mal humoradinha que os meus jovens, e adorei escrever as crianças. Escrever sobre crianças e vida familiar foi como descobrir um pomar cheio de frutas ao alcance das mãos. Os desafios da mudança foram menos os da escrita de fato – que não foi realmente diferente de escrever para jovens, exceto talvez porque há menos sexo no livro adulto – e mais os de promovê-lo. Pouco antes de sair em turnê eu me dei conta de que eu basicamente me sentia uma autora estreante. Mas, para a minha sorte, muitos dos fãs dos meus livros jovens acreditaram em mim e abraçaram “Quando eu parti”.

Em “Quando eu parti”, o leitor fica sabendo logo no primeiro parágrafo que a protagonista Maribeth chegou ao seu limite e teve um enfarte. No livro, você diz que as nossas listas do dia a dia parecem sofrer metástase: nunca terminam, sempre surge uma tarefa aqui e outra ali. Como você lida no seu dia a dia com a conciliação das agendas profissional, social e familiar?

Com dificuldades. Assim como Maribeth, eu às vezes faço um esforço tremendo para limpar toda a minha lista de tarefas, nem que seja só para ter aquele momento de alívio, de saber que está tudo feito. Mas o alívio nunca dura muito, porque assim que você faz uma pausa, as tarefas começam a se empilhar de novo, e aquela compulsão de terminar tudo acaba significando que você nunca termina. Acho que uma das coisas que tive que aprender foi aceitar que nunca vou terminar todas as tarefas, e algumas coisas vão ficar para trás. E aprender que embora eu às vezes vá faltar alguns compromissos, estragar algum plano eu esquecer coisas importantes, o mundo não vai acabar por isso. Para mim, isso é um grande progresso!

Maribeth é adotada e não sabe se a doença cardíaca que tem pode ser genética e não tem como investigar. Você tem uma filha adotada também, certo? Se inspirou nessa experiência para escrever?

Quando a personagem Maribeth surgiu, eu a escrevi como uma filha adotada mas ainda não tinha muita certeza do porquê. E então comecei a ir construindo suas camadas e descobri que isso era o coração do livro. Antes de seu ataque cardíaco, Maribeth estava convencida de que ser adotada não era nada demais para ela. Mas Maribeth estava convencida de que várias coisas em sua vida não eram nada demais, e foi isso que a fez fugir. Minha filha mais nova com certeza influenciou essa parte do livro porque, ao criá-la, eu vejo que não importa o quanto nós a amemos e o quanto ela nos ame, a questão “Por que minha mãe me deixou?” vai ser ser parte dela, como também é de Maribeth.

Você é jornalista, como a protagonista de “Quando eu parti”. Como você vê hoje o trabalho nas redações, sempre exaustivos, e os desafios da grande imprensa, em meio à crise dos impressos e da criação de falsas notícias espalhadas nas redes sociais?

Eu sou na verdade uma ex-jornalista. Tive sorte de sair desse mercado em 2009. Naquela época eu já notava o retrocesso no tipo de conteúdo que os editores queriam, e uma certa tendência a “criar” histórias em vez de reportá-las. Até antes das fake news, já se começava a ver a destruição do que se poderia chamar de notícia. A informação se misturou com o entretenimento, então nem é realmente tão surpreendente que a linha que separa fato e ficção ande tão apagada no jornalismo. Para pessoas que entraram no jornalismo achando que iam salvar é mundo, é uma mudança muito desanimadora. Isso se reflete no trecho em que Maribeth fala que, após o 11 de setembro, ser jornalista parecia um trabalho quase divino, e que agora ela faz matérias sobre ideias de presentes para celebridades.  Acho que nosso apetite pelas notícias o tempo inteiro, 24h por dia, nos levou a esse estado trágico. É muito conteúdo! Muitas horas para serem preenchidas. Não há como distinguir o que é verdade. Os produtores convidam “especialistas” que não sabem realmente de muita coisa e lhes dão espaço para que haja “dois lados” em debates que só têm um lado mesmo. E além disso, as histórias mais leves mudaram o apetite do público. E aí veio o Twitter. Não sei para onde vamos a partir daqui, mas a predominância de fake news e de conteúdo criado para se adequar a crenças políticas são problemas graves. E estamos experimentando seu amargo resultado agora.

 Num artigo publicado na Time, que reproduzimos em nosso blog, você cita dados de pesquisa que mostram que as mulheres, mesmo com todo o avanço dos direitos femininos, ainda ganham menos e são mais responsáveis que os homens em relação às tarefas domésticas e com os filhos. Em março, muitas mulheres foram às ruas, numa reação à eleição de Trump nos Estados Unidos. Você tem acompanhado esse movimento, em meio também a conflitos que vêm se exacerbando pelo país nas últimas semanas?

Com certeza, e acho que as duas coisas estão ligadas. Uma das coisas mais desanimadoras da eleição de Trump para mim – fora toda a questão da supremacia branca, o retorno dos nazistas, a interferência da Rússia e tudo o mais – foi essa revelação do quanto os homens odeiam as mulheres ou, pelo menos, querem controlá-las.  A intensa campanha de calúnias contra Hillary Clinton; a aceitação tão fácil – tanto por homens quanto por mulheres – de que alguém como Trump poderia tranquilamente pensar nas mulheres como pedaços de carne com os quais ele pode brincar; um Congresso que parece disposto, ou até quer, colocar as mulheres de volta nos anos 1950. Acho que a eleição de Trump fez com que as mulheres percebessem tudo isso mais claramente, e por isso houve uma reação tão grande. Uma das coisas encorajadoras é ver que há muitas mulheres participando de eleições, pegando sua fúria e colocando isso no trabalho. Talvez Trump tenha servido para acordar um gigante adormecido. Eu espero que sim.

Ainda no artigo, você conta que, ao conversar com suas amigas sobre o livro, muitas delas confessaram que, assim como Maribeth, já tiveram o sonho de fugir também. É claro que, como mães, carregam muitas culpas e não têm coragem de confessar suas inseguranças. A imprensa reproduz estereótipos também, como um jornal brasileiro que, por ocasião do Dia dos Pais, em agosto, publicou a foto de um executivo falando dos hobbies dele nas horas vagas: jardinagem, escaladas no Himalaia e show de heavy metal. Como mudar a mentalidade das pessoas nessa sociedade patriarcal em que vivemos?

Agora imagine uma reportagem de Dia das Mães que exalta mulheres por conciliar o trabalho com os hobbies e não menciona os filhos. Seria inconcebível. E as reportagens que elogiam os homens que trabalham o dia inteiro e depois tomam conta dos filhos. Em outras palavras, o tipo de coisa que as mulheres fazem o tempo inteiro. Melhor nem continuar. Olha, parte do problema é que ainda há uma expectativa enorme, tanto em nível individual quanto na sociedade, de que as mulheres sejam as responsáveis por cuidar da família. Mesmo que elas sejam também as responsáveis financeiramente.  Parece que estamos vivendo um momento de transição; o mundo patriarcal antigo onde homens trabalhavam e mulheres cuidavam da casa não existe mais, mas esse tipo de mentalidade, sim. A destruição desse patriarcado passa também pelas mulheres fazerem uma autoavaliação e tentarem deixar de lado a própria expectativa de que serão a cuidadora, a responsável, a dona de casa, apenas porque têm um par de seios. Quero dizer, isso não faz mais sentido. Os homens podem lavar roupa também! Minha esperança é que a próxima geração, esses millenials, que estão crescendo com mães e pais que trabalham, vão ver o casamento e a maternidade/paternidade de um jeito mais livre de gêneros. Mas ainda temos um longo caminho a percorrer.

“Se eu ficar” foi adaptado para os cinemas. “Quando eu parti” parece escrito também para virar filme, tal é o seu talento para criar suspense entre um capítulo e outro, fazer o leitor se imaginar nas cenas e descrever tão bem cada personagem. Eu li o livro imaginando já poder vê-lo na tela grande. Já existe algum interesse em adaptação?

Hollywood tem um problema com mulheres. Muitos estudos mostram que filmes sobre mulheres, que têm no elenco predominantemente mulheres, ainda são minoria. Quando se fala em mulheres de meia-idade, Hollywood tem um problema maior ainda. É como se eles tivessem medo de mulheres que envelhecem, então por que iriam querer mostrar algo sobre as vidas de mulheres de meia-idade? O que talvez seja a razão de “Quando eu parti” ser o único dos meus livros que não foi comprado por Hollywood, embora muitos dos leitores me digam que enxergam uma versão cinematográfica (e talvez se enxerguem nele também). Dito isso, tivemos muitas séries de TV incríveis com mulheres recentemente (pensei, por exemplo, em “Big little lies”), o que me deixa esperançosa de que estamos indo na direção certa e de que, quem sabe, haja um movimento também nos filmes.

Você já veio ao Brasil? Qual a sua expectativa para essa participação na Bienal do Livro do Rio, um dos maiores eventos literários do país, que atrai milhares de pessoas para as palestras, estandes e sessões de autógrafos?

Nunca estive no Brasil e está no topo da minha lista de desejos há anos.  Já fui convidada antes para a Bienal, mas não pude ir por causa de conflitos de agenda. Então fiquei muito animada por conseguir este ano. Sei que os leitores brasileiros abraçaram meus livros e filmes, e sou muito grata. Estou muito animada para conhecê-los pessoalmente, conhecer o país e também alguns autores brasileiros.

Por fim, os leitores querem saber para qual público Gayle Forman escreverá seu próximo livro…

Acabei de entregar o meu próximo romance para jovens, já escrevi também um infantojuvenil e estou ansiosa para começar meu próximo livro adulto. Então podem esperar Gayle Forman para todas as idades e públicos nos próximos anos!