A escritora Carla Madeira foi uma das atrações da FliParacatu, realizada entre os dias 24 e 28 de agosto, e, numa das mesas da qual participou a mineira, que terá, a autora leu um trecho de seu próximo romance, ainda sem nome confirmado. A passagem revela que haverá um policial chamado Ferola e um jovem de nome Dom.
Confira abaixo:
“O policial Ferola estava com fome quando Dom cruzou o seu caminho.
Não havia nenhum pão dentro do saco pardo sobre a mesa, embora ele, o saco, permanecesse estufado como se houvesse. Segundo o policial Ferola, nenhum pão de ontem se encontrava na mesa de manhã cedo, Eu me lembro perfeitamente bem, diz para si mesmo, convencido de ser um investigador de primeira a quem nada escapa, que, quando fui me deitar, eles estavam lá; não apenas um, mas dois pães franceses.
Também não há hoje nenhum pão de hoje sobre a mesa, o que faz com que o policial Ferola deduza irritado que ninguém acordou para ir comprá-lo, Alguém que tivesse por mim a mínima consideração teria agido com a mínima consideração numa segunda feira de manhã, conclui Ferola com seus botões atormentados, enquanto se consome de raiva, Há claros indícios de sacanagem!, descarados farelos delatores que comprovam que Berenice, sua digníssima esposa, além de cair no bingo com as amigas safadas do salão e chegar de madrugada em casa como se domingo não fosse véspera de segunda, comeu, não apenas um, mas dois pães franceses, sendo que, pelo menos um deles, não é pedir muito, pelo menos um, deveria estar sendo mastigado por Ferola neste exato instante, A vadia chega a ser incapaz de tirar o ar do saco de pão o que evitaria a ilusão, seguida da rápida desilusão, de que havia um pão dentro do saco. Sou eu quem vai sair para trabalhar enquanto ela se dedicará às próprias cutículas, e eu pergunto: onde está Berenice que não está aqui para ouvir o que merece? No banheiro, claro, apagando as provas, lavando a imunda. Vai demorar com o chuveiro estridente ligado até eu não poder pensar em outra coisa que não seja a conta de água e luz no final do mês a ponto de esquecer da água suja que escorre entre sua pernas – Eu pago a metade das contas! – é o que ela dirá com desprezo, mãos na cintura e ares de desaforo, e se eu abrir a boca e despejar umas verdades do tipo – A gente só divide ao meio as contas, o consumo você encara praticamente sozinha! – Aí o céu desaba.
Com este estado de espírito alimentado pelo buraco do estômago, o policial Ferola saiu de casa reclamando com rancor um pão velho para amaciar na frigideira. Estava atrasado para render na delegacia os plantonistas de fim de semana. Decidiu parar num bar no caminho para tomar café com leite e, finalmente, comer um pão na chapa decente. Por uma destas picuinhas de um dia ruim, a fila do caixa estava enorme e o pão acabou logo na sua vez. Irritadíssimo e com vontade de chutar um cachorro, lembrou-se de uma palestra, muito chata por sinal, que fora obrigado a assistir, de uma mulher de voz pastosa, com um pigarro pendurado na corda vocal, forjado por anos de nicotina, que afirmava categórica que a fome aumenta a agressividade policial – Muito açúcar no sangue faz um sujeito ficar destrutivo. Um homem doce, segundo a ciência, encharcado de neuropeptídios, substância que leva a fome para o cérebro, faz merda – ela dizia e tossia.
Talvez isso, somado à sensação de que Berenice andava aprontando descaradamente, esclareça, até onde pode-se esclarecer a maldade feita a um estranho, o fato de que, naquele dia, o policial Ferola faria uma grande merda com a vida de Dom. Um menino de 17 anos, denunciado pela própria mãe”.