“Cadeia: relatos sobre mulheres”, de Debora Diniz

22/09/2015 3711 visualizações

Por Andressa Camargo

 

Foto DeboraDebora Diniz já frequentava há alguns anos, como antropóloga e pesquisadora, a Penitenciária Feminina do Distrito Federal, chamada de Colmeia. Entrevistava as presas, aplicava questionários, anotava informações, cruzava dados. Um dia decidiu ouvir as histórias de um jeito diferente. Queria esquecer os números e recuperar as vozes: conhecer aquelas mulheres fora da massa carcerária, no singular. Foi acolhida então no Núcleo de Saúde da instituição e, vestida de preto para se diferenciar dos jalecos à sua volta, pôs-se somente a escutar. O resultado desse trabalho são os 50 textos reunidos em Cadeia: Relatos sobre mulheres, obra inquietante e violentamente sensível, que chega às livrarias pela Civilização Brasileira e será lançada no dia 23 de setembro, às 18h30, no Balaio Café, em Brasília.

Para garantir que as histórias dessas mulheres atingissem um público diversificado, Debora optou por redigir textos curtos e que fazem uso de diferentes recursos de estilo, como o humor, a ironia ou a tragédia. As narrativas se apropriam também dos modos de falar do presídio, dando espaço ao dizer marginal. Cama é jega; comida, xepa; banheiro, boi. “Se me angustiei com as histórias das mulheres quando entregavam seus filhos para a adoção, por exemplo, também ri muito nos dias em que passei pelos cantos do Núcleo de Saúde do presídio e ouvi rebeldias como um vibrador na cela de Seguro. Eu queria que esses sentimentos também estivessem na narrativa”, diz a autora na entrevista abaixo.

Cadeia não é um livro de ficção, mas sua linguagem dialoga com a da literatura. Fica claro que, para contar as histórias dessas mulheres que conheceu em campo, você se dedicou a um trabalho criativo meticuloso. Como foi o processo de concepção e elaboração da linguagem e do texto do livro?

Cadeia é um experimento de linguagem, mas é também uma peça ortodoxa de pesquisa acadêmica. Explico-me. Se, por um lado, a prosa científica é perturbada no livro por isso que você descreve como uma vizinhança com a literatura, por outro, o livro é resultado de uma submissão às regras de método sobre o que se define como uma pesquisa respeitável. As mulheres de Cadeia não são construções ficcionais, mas registros etnográficos de vidas escondidas entre as grades.

Eu já havia feito estudos típicos de cientista sobre a cadeia – com números, tabelas e hipóteses. Lancei-me primeiro como a acadêmica ortodoxa também na prosa, para só depois arriscar-me no território da linguagem. Por quê? Não por desdém à narrativa científica tradicional, pois ela é poderosa e importante para falar sobre o que se passa nas cadeias brasileiras, mas porque ela se esvaziou depois de muito conviver em manicômios judiciários, presídios e, agora, reformatórios para meninas.

Assim, foi de um sentimento de insuficiência da linguagem acadêmica que passei ao experimento de linguagem. Comecei escrevendo o que eu chamava de mementos do campo – pequenas e curtas histórias. Mandei para um grupo seleto de leitoras, todas chatas e críticas, e elas começaram a dizer que aquele era um jeito interessante de narrar pesquisa. Resumindo, eu diria que foi essa combinação: um sentimento de fadiga da linguagem tradicional e o estímulo de leitoras meticulosas.

A psicóloga e socióloga iraniana Parinoush Saniee nos disse em uma entrevista que as pesquisas que realizou em seu país alcançariam um público restrito se fossem publicadas em formato acadêmico. Por isso ela decidiu escrever O livro do destino, uma obra de ficção sobre a vida de uma mulher no Irã.  Cadeia também é resultado de uma pesquisa acadêmica, mas foge do formato de artigo, tese ou relatório. Quando surgiu a ideia de escrever o livro e por que você optou por esse formato – com perfis e histórias longe de academicismos?

Saniee está certa e me junto a ela, apesar de não ter sido tão ousada de mover-me para a ficção: escrevo uma prosa acadêmica para ser lida, preciso do encontro com as leitoras. Não acredito nisso de que escrevemos para nós mesmas – é sempre para a leitora desconhecida. Eu queria que os relatos sobre as mulheres da cadeia fossem conhecidos por mais gente do que minhas colegas acadêmicas ou feministas. Por isso, a linguagem do livro é uma forma de convite: os textos são curtos e fazem uso de diferentes recursos de estilo, como o humor, a ironia ou a tragédia. A linguagem acadêmica tradicional é sisuda e, para se fazer de séria, esconde-se em um jargão monótono. Se me angustiei com as histórias das mulheres quando entregavam seus filhos para a adoção, por exemplo, também ri muito nos dias em que passei pelos cantos do Núcleo de Saúde do presídio e ouvi rebeldias como um vibrador na cela de Seguro. Eu queria que esses sentimentos também estivessem na narrativa.

Você tem estado envolvida em pesquisas sobre aborto, feminicídio, questões de gênero, bioética e direitos humanos. Muitas histórias relacionadas a esses temas atravessam os discursos das mulheres do presídio. O que essas personagens te ensinaram como acadêmica, como militante e como mulher?

É, você listou temas difíceis, alguns até proibidos de serem pronunciados, como é o aborto. As mulheres do presídio vivem esses mesmos conflitos que as mulheres de fora dele – a diferença é que ali as agonias são mais intensas. Consegue imaginar o que é ser uma mulher presa por que não cortou o cordão umbilical da filha e foi acusada de homicídio? Ou de uma avó que sucumbiu à pressão do neto e, depois de anos como visitadora, carregou droga na vagina para evitar uma surra prometida? Sim, os conflitos das mulheres comuns estão ali dentro, mas com uma diferença importante: aquele não é um lugar qualquer, mas uma máquina de produzir mulheres abandonadas, por isso, todo acontecimento é singular.

No livro você fala muito sobre o trabalho de observação e de escuta. Explica também que usou roupas pretas e decidiu não fazer perguntas às presas para se diferenciar dos jalecos brancos. “Como regra de convivência, elas me ignoraram”. Por que você optou por essa dinâmica ao longo das pesquisas de campo? Por que essa distância era importante?

O experimento não foi só de linguagem, mas de método acadêmico. Este livro foi escrito depois de anos frequentando manicômios judiciários e o presídio feminino da capital do país: eu era já conhecida da equipe de trabalhadores e de muitas presas. Eu já havia conversado com elas, feito entrevista, aplicado questionário – percorrido os métodos que a ciência classifica como “confiáveis”. Cheguei num ponto em que me impus uma pausa: queria ouvir histórias de um jeito diferente. Ou me fazia de presa e passava uns dias numa cela lotada (até pedi para dormir umas noites por ali, mas fui ignorada), ou dava um jeito de ser a mosca na parede do cinema documentário.

O preto era fundamental – as presas duvidam de quem veste preto, e eu queria que elas falassem sempre com a orelha da suspeita levantada. Mas nem era preciso: as conversas que acompanhei foram sempre sombreadas pela equipe de segurança. Não havia encontro particular do jaleco branco com a presa sem a mediação do colete preto, alegoria pela qual descrevi a segurança. No início fiz lista de minhas apresentações, explicava-me sobre o que fazia ou quem era a cada presa, mas logo percebi que elas tinham pouco interesse em mim e menos ainda queriam usar do precioso tempo de atendimento no Núcleo de Saúde para se preocupar com o que eu anotava – as histórias ali são públicas, não há segredo. Até as paredes tem ouvidos, todas são cortadas para as conversas serem sempre em assembleia.

Assim, talvez, eu não descrevesse como distância, apesar de ser esta uma palavra querida para os métodos científicos: “fui uma pesquisadora objetiva, distante e imparcial”, diriam os manuais de pesquisa. Eu quis menos do que isso. Eu queria ouvir o real se movendo pelas necessidades de sobrevivência de cada presa: o jaleco branco é um personagem cuidador da vida, e, naqueles momentos, elas são pacientes e não só presas.