Celebrando a pluralidade de vozes do catálogo do Grupo Editorial Record, eis uma seleção de obras que apresenta a ditadura civil-militar no Brasil, iniciada em 31 de março de 1964, em suas diversas facetas e controvérsias. Do retrato da luta feminista a um livro-jogo ambientado durante a implementação do AI-5, as obras escolhidas oferecem diferentes perspectivas sobre um dos momentos de maior repressão na história brasileira, que durou 21 anos, convidando o leitor para uma reflexão sobre a importância do passado nas transformações do presente.
Relato pessoal de um exilado
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Rabo de foguete
Ferreira Gullar
Editora José Olympio
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Documento histórico e obra literária, Rabo de foguete narra, na voz imortal de Ferreira Gullar, como os anos de chumbo da ditadura civil-militar brasileira o atingiram e levaram a viver no exílio durante a década de 1970. Trata-se de um livro de memórias com o ritmo de um romance escrito pela personalidade ativa e contrária ao regime imposto de um dos maiores nomes da literatura brasileira.
Com fotografias do exílio e imagens inéditas do passaporte de Ferreira Gullar, cancelado pela ditadura, a edição conta também com relatórios do Serviço Nacional de Informação (SNI) sobre o paradeiro do poeta. A obra conta momentos como sua odisseia recebendo abrigo no Rio de Janeiro após cair na ilegalidade, da onde seguiu para o desterro em países como Uruguai, Argentina, União Soviética, Chile e Peru. A partir de um relato pessoal, Ferreira Gullar expressa a dor e a angústia compartilhadas pelos perseguidos latino-americanos durante as décadas de ditadura.
Da ditadura de Vargas à luta feminista
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Patrícia Galvão: Pagu, militante irredutível
Maria Valéria Rezende
Editora Rosa dos Tempos
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Patrícia Galvão: Pagu, militante irredutível traz uma narrativa memorialística onde o leitor conhece Patrícia Galvão, conhecida como Pagu, pelos olhos da premiada escritora Maria Valéria Rezende. Retrato de um país e uma era, o livro percorre momentos históricos de fugas e prisões, da cena modernista brasileira, da opressão do Estado Novo e do início da luta feminista.
Através da amizade que começou no Teatro Coliseu e se esticou até o Bar Regina, Maria Valéria e Pagu foram unidas pela consciência social, política e cultural de quem luta por uma realidade melhor para todos. Na tarefa de recordar a amiga, Maria Valéria conta sobre as facetas por trás de cada nome e como Pagu, mais até do que uma mulher liberta, se tornou um ser político, atuando em todas as frentes, e, extrapolando a política, se entregou à atuação social e artística. Afetivo e apaixonado, as memórias da obra escancaram a convergência de espírito, um ímã que une essas duas mulheres inconformadas, dessas duas militantes irredutíveis.
Nas telas do cinema
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O agente secreto
Kleber Mendonça Filho
Editora Amarcord |
Vencedor de melhor filme de língua não inglesa no Globo de Ouro e indicado ao Oscar 2026 em quatro categorias, O agente secreto, de Kleber Mendonça Filho, ganhou uma adaptação em livro de seu roteiro original. A publicação traz textos do cineasta e de Wagner Moura, premiado na categoria de melhor ator de drama no Globo de Ouro, além de imagens exclusivas do storyboard que deu origem ao filme.
Em seu texto, KMF conta como a história do filme surgiu e suas inspirações – dentro e fora do cinema - para criá-la. O agente secreto seria o título de um filme que tentou escrever anos atrás e nunca conseguiu. Na retomada desse antigo projeto, sua escrita, acompanhada das ideias do amigo Wagner Moura, perpassa pelo contexto político do Brasil durante a pandemia e encontra a importância da preservação da memória histórica de um povo.
Como tudo começou
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1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes Editora Civilização Brasileira |
Em 1964 - O golpe que derrubou um presidente, pôs fim ao regime democrático e instituiu a ditadura, os historiadores Jorge Ferreira e Angela de Castro Gomes fazem um panorama de como se instaurou a ditadura civil-militar no Brasil e seus desdobramentos. É possível entender melhor esse conturbado período da história, que rendeu ao país duas décadas de repressão e tantas injustiças. Numa linguagem objetiva, sem exageros acadêmicos ou notas de rodapé excessivas, que tornem o texto menos atraente para o grande público, os autores destacam personagens e momentos que marcaram o período, relembrando falas de personalidades e trechos de jornais que noticiaram o Golpe.
Círculo de Mulheres Brasileiras
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Envelhecer é para os fortes
Helena Celestino
Editora Record
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Resgatando a história do Círculo de Mulheres Brasileiras, grupo assumidamente feminista, formado em Paris no exílio dos anos 1970, Envelhecer é para os fortes traz à tona a memória de um grupo de mulheres que resistiu à ditatura brasileira. Através da trajetória de oito pioneiras no jeito de viver, Helena Celestino recupera as lembranças dessa luta por direitos num tempo em que a violência se misturava à utopia e constrói uma narrativa do envelhecimento no início do século XXI.
Numa narrativa envolvente, a autora mostra os novos desafios enfrentados pelas mulheres da época e ensina como o aspecto pessoal é também político, e como a memória é uma forma de resistência.
A ditadura na ficção
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O corpo interminável
Claudia Lage
Editora Record
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Nesse romance de Claudia Lage, vencedora do Prêmio São Paulo de Literatura, conta a história de uma família prestes a ser relembrada e resgatada. Em busca de suas origens, Daniel tenta reconstituir a história de sua mãe, guerrilheira desaparecida na ditadura civil-militar no Brasil.
As tentativas de trazer à tona a sua história pessoal junto à história do seu país e os fios de memória rompidos moldam a narrativa delicada da autora. Ao buscar informações sobre a mãe, surgem outras histórias, ou outras possibilidades de histórias, também desaparecidas, de tantas mulheres. Nessa obra, Claudia Lage escreve sobre a ausência e também sobre a própria escrita quando compartilha essa (im)possibilidade de se reinventar e se refazer por meio das palavras.
Livro-jogo resgata situações reais
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O porão
Vítor Soares e Giovanni Arceno
Editora Record
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Com uma história que se passa na implementação do AI-5, O porão é um livro-jogo ambientado na ditadura brasileira, criado por Vítor Soares e Giovanni Arceno. Ao citar personagens e situações reais vividas pela luta armada durante a resistência ao regime militar, os escritores entrelaçam fatos e ficção de forma fluida e emocionante.
Cecília foi capturada em uma emboscada por agentes do Dops, e levada para uma delegacia onde os detidos são mantidos em condições degradantes. De imediato, Samantha toma a decisão de invadir o prédio do Dops. Cabe ao jogador-leitor definir quão impossível é essa missão de resgate, e, para isso, precisará fazer escolhas e rolar dados, contando tanto com a perspicácia quanto com a sorte – para, quem sabe, reescrever os rumos da História.
Memórias da linha de frente
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Na corda bamba: memórias ficcionais
Daniel Aarão Reis
Editora Record |
Como alguém que viveu a ditadura brasileira, o historiador Daniel Aarão Reis apresenta um retrato ficcionalizado da experiência de uma geração de jovens e da sociedade brasileira nas sombrias décadas de 1960 e 1970. Na corda bamba: memórias ficcionais é a estreia de Daniel na ficção, onde ele se permite explorar aspectos autobiográficos com uma narrativa ficcional sobre o golpe militar de 1964.
A obra é composta por contos que que acompanham os traumáticos acontecimentos do período a partir de personagens plurais, tanto progressistas de esquerda quanto apoiadores do golpe. Ambientadas no Rio de Janeiro, em Argel, Paris, Santiago, Havana e de volta ao Rio de Janeiro, as histórias abordam, com sensibilidade e não raras vezes humor, o cotidiano, as vivências e as dores daqueles jovens cheios de ideologia e sonhos. Na corda bamba: memórias ficcionais é um presente que resgata, com força e sensibilidade, um dos momentos mais difíceis da história do Brasil.
Reflexões dos bastidores
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A esquerda e o golpe de 1964 Dênis de Moraes Editora Civilização Brasileira |
Em A esquerda e o golpe de 1964, Dênis de Moraes apresenta importantes reflexões e revelações sobre os bastidores da política, da luta operária e das mídias, além de depoimentos esclarecedores daqueles que viveram e resistiram aos anos de chumbo. Nomes como Darcy Ribeiro, Francisco Julião, Luiz Carlos Prestes e Leonel Brizola são apenas alguns dos que ilustram estas páginas.
Com linguagem jornalística e dados obtidos em fontes primárias, como jornais de ampla circulação e testemunhos, os leitores e as leitoras encontram uma narrativa histórica dinâmica e cinematográfica. A nova edição apresenta depoimentos e conteúdos inéditos sobre a experiência e as reflexões da esquerda brasileira frente ao processo político que levou à deposição do presidente João Goulart em 1964.




















